Canonização do Beato Nuno de Santa Maria
No passado dia 21 de Janeiro, o Papa Bento XVI anunciou a canonização do
Beato Nuno de Santa Maria que decorrerá em Roma no dia 26 de Abril. Esta
notícia terá certamente sido motivo de alegria para muitos católicos, e
de forma particular para os portugueses espalhados pelos quatro cantos
do mundo.
Dom Nuno Álvares Pereira, foi beatificado pelo Papa Bento XV em 23 de
Janeiro de 1918, tendo o seu processo de canonização sido iniciado em
1940. Foi posteriormente interrompido, nos anos 60, em grande medida em
resultado da guerra colonial, facto que, segundo as palavras de S.A.R. o
Duque de Bragança: “Terá dado um contributo para os atrasos neste
processo, que se arrastou durante décadas, porque D. Nuno Álvares
Pereira era um militar.” . O processo foi reaberto, em grande medida
devido à acção do Duque de Bragança. A partir de 2000, o Herdeiro do
Trono de Portugal, descendente do Condestável e um dos grandes
promotores da causa da Canonização de Dom Nuno Álvares Pereira,
desenvolveu contactos com as igrejas espanhola e portuguesa, para que a
Canonização do Santo Condestável fosse reconhecida e o processo
avançasse. Em 13 de Julho de 2004, a Ordem do Carmo, juntamente com o
Patriarcado de Lisboa, decidiu retomar a defesa da causa da canonização
de Nuno Álvares Pereira. Nuno Álvares Pereira ingressou na Ordem do
Carmo em 1422 com o nome religioso de Frei Nuno de Santa Maria.
Alguns meios de comunicação social generalistas e outros de inspiração
religiosa têm noticiado a canonização de Nuno Álvares Pereira. Têm
igualmente sido publicados alguns artigos acerca deste tema, onde são
ressaltadas simultaneamente as vertentes militar e religiosa que
caracterizaram a vida do Santo Condestável.
Dom Nuno Álvares Pereira revelou o seu excepcional génio militar em
várias ocasiões, sendo de destacar sobretudo a vitória do exército
português por si comandado a 14 de Agosto de 1385, na batalha de
Aljubarrota, exército constituído por 6.000 portugueses e aliados
ingleses, contra as 30.000 tropas castelhanas. A batalha viria a
tornar-se decisiva para o fim da crise política de 1383-1385 e para a
consolidação da independência de Portugal.
Mas, que simbolismo e que significado terá para o povo Português, nos
dias actuais, a canonização desta ilustre figura da nossa História?
Deverá apenas ser recordado como um exímio militar ou também um homem de
Fé, um inspirador dos valores da integridade, dignidade, amigo da Pátria
e dos pobres, tal como nos é apresentado pelos seus cronistas?
Penso que a circunstância da sua canonização deveria ser aproveitada
para relembrar ao povo português não só o excepcional génio militar, mas
sobretudo a grande figura nacional que foi Dom Nuno Álvares Pereira.
Numa altura em que parece haver uma crise de auto-estima entre a
sociedade portuguesa, e quando se fazem ouvir algumas vozes defensoras
de um União Ibérica, é importante acentuar perante os Portugueses a
figura ímpar do Santo Condestável, cuja acção foi decisiva para a
consolidação da unidade nacional em momentos em que a independência
nacional corria perigo.
A meu ver, este evento não pode nem deve ser ignorado pelo Estado
Português. No entanto, é com apreensão e estranheza, caro ouvinte, que
constato que, de entre todos os responsáveis do espectro
político-partidário e das instituições oficiais do Estado Português só
tenha havido pronunciamentos sobre a canonização de Dom Nuno Álvares
Pereira por parte respectivamente do Chefe de Estado e do líder do
CDS-PP. A propósito do evento, o Dr. Paulo Portas afirmou: "É uma grande
alegria para Portugal, para os católicos portugueses e para as
instituições que têm o Condestável como inspiração, os militares e os
que ajudam quem mais precisa." E acrescentou ainda: "Deve saudar-se
efusivamente a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, cujo "testemunho
de vida, coragem e fortaleza nas crises, generosidade e entrega aos
pobres, é um exemplo que importa não esquecer. Foi um líder destemido
que sempre assentou a força na justiça.”. Paulo Portas realçou ainda
o facto de o Santo Condestável ter abandonado todo o poder e todas as
honras depois de ter atingido todos os seus objectivos, para se dedicar
à fé e ingressar na Ordem do Carmo.
José Fonseca
Nota: O texto acima foi lido no Reparo da Semana de 2/4/09, a crónica semanal que o autor tem às 5ªs feiras na rádio Universidade FM (104.3) www.universidade.fm, às 8:45h, 9:45h e 15:45h. O mesmo texto foi publicado mediante a autorização expressa do autor.
A Direcção do PDR agradece a colaboração deste leitor.
